Medalhista de bronze em Londres-2017, o atleta brasiliense compete na prova de 20km, nesta sexta-feira (4/10), em Doha, no Catar. Forte calor é um dos desafios a ser enfrentado

<i>(Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)</i>
Marche, soldado, pela glória. Você sabe do que é capaz. Marche pelo filho distante, que se orgulhará das façanhas que um dia lhe recordará. Marche por tua terra – Cerrado, quente e seco –, onde meninos e meninas também sonham o sonho que você sonhou. Marche por tua mãe e teu pai, que te conceberam com DNA vencedor em leito de olímpico amor. Marche, enfim, pela saudosa esposa, que aguarda o teu retorno triunfante e em paz ao Brasil.
Motivos não faltam para que o brasiliense Caio Bonfim, 28 anos, se esforce ao máximo para subir ao pódio do Campeonato Mundial de Atletismo, nesta sexta-feira (4/10), em Doha, no Catar. Medalhista de bronze na prova de 20km da marcha atlética na edição passada da competição, em Londres-2017, o sargento da Força Aérea Brasileira tenta repetir ou superar o feito, mas terá de encarar, além de rivais extremamente qualificados, o forte calor de quase 40°.
“Em um Campeonato Mundial, o nível é altíssimo. Desde 2015, tenho figurado entre os melhores do mundo. A ideia é brigar por boas colocações, pelo pódio. Esse é o foco. Trabalhamos bastante”, comenta Caio, que ocupa atualmente a terceira posição no ranking do Circuito Mundial da marcha atlética de 20km, com 21 pontos, em cinco provas na temporada. À frente dele estão o espanhol Diego García (24), na segunda posição, e o sueco Perseus Karlström (25), na liderança. Mas há também outros fortes adversários, como o japonês Toshikazu Yamanishi, que neste ano registrou o tempo de 1h17min15s – a melhor marca entre os 54 inscritos da prova que terá largada às 23h30 no horário local (17h30, em Brasília).
A elevada concorrência fez com que João Sena, técnico e pai do atleta, caprichasse na preparação visando ao Mundial. Caio chegou a Doha há 11 dias para se adaptar adequadamente ao clima local. Antes, passou três semanas em Serra Nevada, na Espanha, treinando em altitude de 2.300 metros para aprimorar o condicionamento físico. “A preparação deste ano foi das melhores. Pela primeira vez, ele fez duas fases em altitude elevada. Primeiro, em Cuenca, no Equador, em julho, para o Pan. Depois, na Espanha. Também chegou com antecedência ao Catar para aclimatação. Houve uma prova no México, onde ele desembarcou um dia antes e foi apenas o quinto colocado, sofrendo muito. Mas agora posso dizer que está bem aclimatado. Também competiu nos 50km dos Jogos Pan-Americanos para ganhar mais resistência”, resume o treinador.
Resultados recentes confirmam a boa fase de Caio Bonfim. Em junho, ele disputou o GP Cantones de La Coruña, na Espanha, e bateu o recorde brasileiro dos 20km, com 1h18min47s. Depois, em agosto, obteve a medalha de prata dos Jogos Pan-Americanos de Lima, com tempo de 1h21min57s, atrás do equatoriano Brian Pintado (1h21min51s). Em seguida, o brasiliense conquistou o sétimo título do Troféu Brasil, em Bragança Paulista, com 1h24min32s. “Trabalhamos bastante, tenho treinado e me dedicado muito. Toda essa preparação para brigar entre os melhores. O determinante é acreditar que a gente pode chegar”, comenta o marchador.

Apoio familiar para vencer

Caio Bonfim iniciou na marcha atlética de forma um tanto tardia, em 2007, quando tinha 16 anos. O apoio familiar, no entanto, tratou de sanar qualquer deficiência em relação ao tempo. Filho de Gianetti Sena, oito vezes campeã brasileira da modalidade, e do treinador João Sena, fundador do Centro de Atletismo de Sobradinho (Caso-DF), o atleta encontrou em casa todo o apoio necessário para rapidamente evoluir no esporte. “Começamos brincando, fazendo alguns testes. Meus pais perceberam que eu poderia ser um atleta. Fizemos algumas tentativas e notaram que eu tinha talento. Começamos a investir bastante e estamos nessa até hoje”, conta Caio.
Há 36 anos, o professor de educação física João Sena, especializado em atletismo e pós-graduado em treinamento desportivo, mantém a atuação no Caso-DF, com atividades na pista do Estádio Augustinho Lima. O objetivo do trabalho é revelar atletas com potencial olímpico. A ex-corredora de longa distância Carmem de Oliveira – primeira brasileira a vencer a São Silvestre e recordista sul-americana da maratona – e cerca de 30 campeões brasileiros receberam a atenção do treinador.
<i>(Foto: Arquivo pessoal)</i>
“Em 2019, ganhamos mais de 15 medalhas em campeonatos nacionais. Treinamos atletas de Sobradinho, Fercal, Lago Oeste, Planaltina, Paranoá, Itapoã, São Sebastião e Ceilândia. As crianças vão aparecendo, não têm uniforme ou tênis, mas nós acolhemos. O Caso-DF existe para revelar talentos. Temos cumprido isso com inúmeras parcerias: Secretarias de Esporte e Educação, Caixa Econômica, Serviço Social – todo mundo vai nos ajudando. Seria melhor se tivéssemos mais contribuições ainda, mas o atletismo é uma modalidade muito sofrida”, comenta Sena.
Apesar das dificuldades e dos apoios escassos, Caio acredita que os bons resultados que tem alcançado não serão os únicos destaques do legado do projeto iniciado pelo pai. “Fico feliz de sair de Sobradinho e mostrar meu talento ao mundo. Ajudo o Caso-DF e acredito que novos atletas com grande potencial ainda surgirão em Brasília”, diz. Neste Campeonato Mundial, pela primeira vez o Distrito Federal contou com dois atletas inscritos na competição. No sábado passado, Elianay Pereira foi a 16ª colocada da prova de 50km da marcha atlética, com tempo de 5h11min26s, entre 24 inscritas. A campeã foi a chinesa Rui Liang (4h23min26s).
Se o trabalho em família continuar, uma nova geração em breve poderá deixar Sobradinho rumo aos pódios. Caio e a esposa, Juliana Bonfim, tiveram o primeiro filho, Miguel, em junho, às vésperas de o atleta embarcar para os Jogos Pan-Americanos de Lima. O último período da gravidez provocou dores à mãe e o parto precisou ser realizado com oito meses de gestação. O bebê teve de ficar algum tempo sob observação, mas passa bem. “É uma motivação a mais. Está sendo um momento legal”, diz Caio, que ainda não teve muito tempo de curtir a vida de pai. Devido às competições, passou apenas 10 dias com o filho, mas espera voltar para casa com boas notícias, após o Mundial Militar, no fim deste mês, na China.
Fonte: Fernando Brito/ df.superesportes.com.br