Artistas brasileiros e internacionais participam de evento cultural que democratiza o acesso à arte ao pintarem pontos de ônibus

Elas estão por toda a parte. Imóveis. Paradas. Na maioria das cidades servem apenas de abrigo para passageiros que usufruem do direito constitucional de ir e vir. Mas, em Sobradinho, no Distrito Federal, os pontos de ônibus se tornaram obras de arte transformando, assim, a cidade serrana da capital do país em uma galeria a céu aberto.

Pincéis e rolinhos de tinta dão movimento às paradas e colorem a vida dos moradores. Os pontos de ônibus se tornam um espaço de contemplação para desfrutar a espera. E também passam a ser lugares lúdicos em meio ao ritmo acelerado da cidade. A arte urbana interage com os indivíduos, comunica ideias, expressa emoções, questiona normas sociais e transformas as pessoas para melhor.

Pinturas e colagens produzidas nas telas improvisadas nas ruas por cerca de 60 artistas locais, nacionais e internacionais disputam, com as telas dos celulares, a atenção de quem precisa usar o transporte público e dos pedestres que circulam pela região administrativa.

É um descanso para olhos bombardeados a todo momento por memes, dancinhas e a avalanche de informações transmitidas pelas redes sociais hoje em dia. A cultura se sobrepõe à internet e resgata, mesmo que por alguns minutos, os zumbis tecnológicos para a reflexão e a expressão de sentimentos.

“As pessoas passam algum tempo aqui aguardando o ônibus e a arte torna a espera mais agradável. Além disso, nos faz pensar, penetra na alma e traz leveza para o dia. A cultura é essencial”, comemora o aposentado Durval Brito. Dependendo do itinerário, é possível contemplar artes abstratas, pinturas de alguns monumentos de Brasília, araras estilizadas, espécies da fauna e flora do Cerrado, pessoas pedalando e tantas outras variedades artísticas.

A ideia de usar o espaço público para democratizar o acesso à arte e levá-la para o cotidiano das pessoas foi do artista plástico Toninho de Souza. Com o apoio da administração regional e da Secretaria de Transporte e Mobilidade do DF (Semob), ele promove a 4 Bienal Internacional de Arte Urbana que está revolucionando a paisagem urbana de Sobradinho. Baiano de nascimento, ele adotou a cidade onde vive com a família há décadas.

“Tudo começou em 2017 e o objetivo do projeto é trazer o museu e a galeria de arte para as ruas onde está o povo que nem sempre tem condições de frequentar exposições em espaços selecionados”, explica Toninho.

De acordo com o artista, 32 paradas de ônibus já receberam trabalhos com diferentes manifestações artísticas. Ao todo, 74 pontos localizados nas principais vias da cidade receberão as cores, ideias e a criatividade dos artistas convidados. Até o dia 15 de abril, as obras serão expostas 24h e poderão ser apreciadas pelos moradores. “Não há temas pré-determinados. Os artistas têm total liberdade criativa. E é bom destacar que não há recursos públicos envolvidos na bienal. Cada artista tira do próprio bolso para comprar o material utilizado. É uma doação para a cidade”, acrescenta.

Artista do Paranoá, Gersion de Castro é filho de pioneiros e participou de todas as edições da Bienal Internacional de Arte Urbana a convite de Toninho de Souza. Em suas obras, o brasiliense usa referências da cidade onde mora desde 1972. “Gosto de retratar o início de Brasília em minhas pinturas para mostrar como era morar aqui naquela época. Esse ano eu pintei o acampamento montado durante a construção da barragem do Lago Paranoá”.

E não são apenas os passageiros e pedestres que desfrutam da arte urbana de Sobradinho. Alguns motoristas de ônibus também aproveitam as paradas para contemplar as pinturas e colagens. “Sempre que posso eu dou uma olhada durante o embarque e desembarque dos usuários. São (pinturas) muito bonitas. As outras cidades podiam fazer o mesmo”, sugere o motorista José Santos.

Vandalismo

Moradora de Sobradinho, Sandra Uga é artista plástica desde 1980 e é uma das convidadas da bienal. Apaixonada pelos monumentos e pontos turísticos da capital federal, ela pintou o Supremo Tribunal Federal e a estátua da Justiça em um dos lados da parada de ônibus. Mas, segundo ela, a primeira obra que era um painel digital colado foi roubada. Na segunda vez, ela fez questão de pintar a própria estrutura.

“Brasília já é uma obra de arte e eu me inspirei na sede de um dos Poderes da República. Mas eu pintei a venda da Justiça um pouco para cima mostrando um pouco de parcialidade”, revela. No lado de trás da parada, Sandra aproveitou para pintar uma mulher pedalando pela cidade para estimular a mobilidade ativa. “A bicicleta é importante para o transporte e para a saúde das pessoas”, completa.

Tom Mello, outro artista frequente na bienal, é especialista em obras abstratas e também reclama da depredação e do vandalismo. “Temos o apoio irrestrito da comunidade, mas, às vezes acontece, infelizmente, de as pessoas picharem ou até arrancarem os nossos trabalhos. No entanto, avançamos nessa última edição porque denunciamos a ação dos vândalos na delegacia e na administração e providências estão sendo tomadas”, avisa.

Em nota, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) informa que, de fato, autorizou a realização da pintura artística nos abrigos de passageiros de Sobradinho pelos artistas participantes da 4 Bienal Internacional de Arte Urbana.

“A Semob apoia a arte e a promoção de projetos que enalteçam os mobiliários urbanos, incluindo sua manutenção por meio de pinturas que acrescentem valos estético e artístico à cidade”.

A pasta ressalta ainda “que os abrigos desempenham um papel crucial para os usuários do transporte público coletivo, e suas estruturas e funcionalidades devem ser preservadas.”

Todos os artistas envolvidos na bienal estão participando também de uma exposição em dos centros comerciais de Sobradinho. “Esse evento cultural é um intercâmbio entre a galeria e a rua. E quem ganha são os moradores que têm a oportunidade de conhecerem outras obras dos artistas em uma galeria. E tudo de graça”, conclui Toninho de Souza.

Felizes daqueles que esbarram com a arte sem precisar ir até centros culturais. Afinal, durante o deslocamento pela cidade, o ser humano pode viver novas experiências, sentir emoções e, sobretudo, expressar opiniões e sentimentos. No mundo dos algorítimos e da inteligência artificial, a arte estimula a comunicação entre as pessoas e torna possível a criação de laços reais, fora das redes sociais que mantêm todos tão próximos a quilômetros de distância.

O legado dos pintores de emoções e de ideias da Bienal Internacional de Arte Urbana é resgatar a subjetividade humana e incentivar o contato entre as pessoas. Sobretudo o debate e a reflexão. Vida longa à criatividade desse grupo de artistas que pintam cidadania com seus pincéis e tintas coloridas nas vias de Sobradinho.

Serviço

  • O que: Exposição 4 Bienal Internacional de Arte Urbana (2023-2024)
  • Onde: Sobradinho Shopping – 1 andar
  • Quando: segunda a sábado, de 10h às 22h – domingo, das 12h às 20h

Fonte: Afonso Ventania/Jornal de Brasilia