O cineasta e realizador de Sobradinho, Pedro Lacerda, tem mais uma produção cinematográfica de sua já longa carreira selecionada para o exigente Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a ter lugar no Cine Brasília de 14 a 20 de novembro, trata-se do mais longevo festival de cinema do país. O seu novo longa “Profissão Livreiro”, está na Mostra Brasília e será exibido em 16 de novembro, com entrada franqueada ao público.

O documentário registra a luta dos livreiros candangos Ivan Presença e Chiquinho da UnB, este último conhecido morador de nossa cidade. Os mesmos relatam os desafios impostos pelos novos modelos de negócio do mercado editorial, em virtude da chegada das novas tecnolgias. Também são entrevistados várias outras personalidades de Brasília e outros Estados. 

Foram 34 longas inscritos para apena 4 selecionados. Pedro confessa que foi uma grande peneira e a expectativa por demais esperada. “O filme deve ter lá os seus méritos”, diz com a alegria de vencedor desta primeira etapa. Acrescenta que seus últimos dias foram bastantes atribulados, envolvido, ora consertando partes da imagem e do som e, por outro lado, providenciando toda a documentação exigida pela coordenação do Festival. 

                                                          O Festival

De 14 a 20 de novembro, o mais longevo festival de cinema do país chega à sua 55ª edição apresentando mais de 40 títulos de todas as regiões brasileiras e com homenagem ao veterano realizador Jorge Bodanzky. Com quase 1.200 filmes inscritos, a seleção oficial do 55º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro é dividida entre longas e curtas das mostras Competitiva Nacional e Brasília, além de duas mostras paralelas de longas e sessões hors-concours. O Festival de Brasília é realizado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal e a OSC Amigos do Futuro.

A edição 2022 está focada no retorno ao ambiente de exibições presenciais e na reconstrução de políticas do audiovisual brasileiro. Procurando ampliar a janela de filmes em competição e mantendo a marca histórica de 6 longas e 12 curtas nacionais, o Festival de Brasília inicia os trabalhos já com a Mostra Competitiva Nacional na noite de abertura. Os filmes competem por quase 30 troféus Candango, em sessões apresentadas sempre às 20h30, de 14 a 19 de novembro. A direção artística desta edição é assinada pela produtora Sara Rocha.

LONGAS-METRAGENS

Entre os longas da Mostra Competitiva Nacional foram selecionadas duas produções do Distrito Federal, feito inédito na história do festival: Mato seco em chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta, obra futurista que explora os impactos da presença da extrema-direita em ambientes de favela; e Rumo, de Bruno Victor e Marcus Azevedo, sobre a trajetória de implementação das cotas raciais em universidades brasileiras.

E é justamente no debate político-social brasileiro que se firma o restante da programação de longas. O documentário fluminense Mandado, de João Paulo Reys e Brenda Melo Moraes, investiga o sistema penal brasileiro; enquanto o título paulista-amazonense A invenção do outro, de Bruno Jorge, acompanha expedição humanitária do indigenista Bruno Pereira na Amazônia em busca da etnia isolada dos Korubos. Entre as ficções selecionadas, o mineiro Canção ao Longe, de Clarissa Campolina, debate questões de classe, família, tradição, raça, gênero e identidade, e o pernambucano Espumas ao vento, de Taciano Valério, contrapõe o labor da arte à expansão de igrejas neopentecostais pelo Brasil.

CURTAS-METRAGENS

Entre os curtas da Competitiva Nacional do 55º Festival de Brasília, um panorama da produção nacional traz títulos de Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Paraíba, Pernambuco, São Paulo e Rio Grande do Sul. A ficção Big bang (MG/RN), de Carlos Segundo, debate a sistemática exclusão social; enquanto Ave Maria (RJ), de Pê Moreira, pensa afetos e relações familiares; e Lugar de Ladson (SP), de Rogério Borges, discute acessibilidade a partir da história de um garoto cego que não sai de casa, buscando em seu celular um encontro amoroso. Calunga maior (PB), de Thiago Costa, se inspira na cultura bantu para abordar relacionamentos afetivos e memórias da diáspora africana; e Sethico (PE), de Wagner Montenegro, explora a tragédia colonial ante as vidas negras no Recife.

Anticena (DF), de Tom Motta e Marisa Arraes, traz o tom da competição ao tratar de arte, oportunidade e empregabilidade no Brasil. Do Rio de Janeiro, Nossos passos seguirão os seus…, de Uilton Oliveira, resgata a memória de Domingos Passos, militante anarquista do movimento operário brasileiro. Escasso, do duo Encruza (Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles), se estrutura como falso documentário a narrar os anseios de uma passeadora profissional de pets em busca da casa própria.

De São Paulo, São Marino, de Leide Jacob, conta a história de um monge transmasculine do século VI canonizado como Santa Marina; e de Pernambuco Capuchinhos, de Victor Laet, narra uma bem-humorada saga de duas jovens por conexão de internet em meio a uma floresta. A liberdade feminina é mote explorado em Nem o mar tem tanta água (PB), de Mayara Valentim; e conflitos de tradição indígena entre meninas e mulheres ganha a tela em Um tempo para mim (RS), de Paola Mallmann de Oliveira.

A comissão de seleção de longas é formada pelo crítico de cinema André Dib, o cineasta e curador Erly Vieira Jr, a curadora e produtora Rafaella Rezende e a pesquisadora Janaína Oliveira. Para os curtas, a seleção se deu através dos olhares do jornalista e pesquisador Adriano Garrett, a programadora e produtora Bethania Maia, a curadoras e realizadoras Camila Macedo e Flavia Candida, a atriz e roteirista Julia Katharine e o pesquisador e curador Pedro Azevedo.

MOSTRA BRASÍLIA

Na tradicional Mostra Brasília, uma seleção de quatro longas e oito curtas-metragens produzidos no Distrito Federal disputa 13 troféus Candango, acompanhados de R$ 240 mil em prêmios concedidos pela Câmara Legislativa do DF, incluindo R$ 100 mil para o melhor longa e R$ 30 mil para o melhor curta pelo júri oficial. Na categoria júri popular, o longa vencedor receberá R$ 40 mil, enquanto o curta agraciado ficará com R$ 10 mil. A comissão de seleção de filmes é formada pelo produtor Sidiny Diniz, o publicitário Allyson Xavier, a produtora Simônia Queiroz, o cineasta Péterson Paim e o curador e crítico Sérgio Moriconi.

Entre os longas, O pastor e o guerrilheiro marca o retorno do veterano cineasta José Eduardo Belmonte ao festival que o revelou. A produção debate os conflitos históricos e o triste legado da ditadura militar brasileira. O diretor Felipe Gontijo, por sua vez, apresenta Capitão Astúcia, aventura que une neto e avô para debater envelhecimento. Realizador de Sobradinho, Pedro Lacerda documenta os livreiros candangos Ivan Presença e Chiquinho da UnB nos desafios impostos pelos novos modelos de negócio do mercado editorial em Profissão Livreiro; e Wesley Godim fecha a seleção de lonas com Afeminadas, documentário sobre o universo drag queen de Brasília.

A seleção de curtas também aponta para um vasto panorama da nova produção local. Desamor, de Herlon Kremer, aborda o delicado tema da separação; Super-heróis, de Rafael de Andrade, celebra os heróis do cotidiano; Plutão não é tão longe daqui, de Augusto Borges e Nathalya Brum, cria a fictícia favela Plutão, às margens da Ceilândia, onde se abrigam opositores de um governo autoritário; e Manual da Pós-verdade, de Thiago Foresti, investiga o lugar da produção jornalística em meio às fake news.

Carolina Monte Rosa apresenta Tá tudo bem, curta que debate diferenças sociais atenuadas pelo isolamento social; e Juliana Corso exibe Virada de jogo, filme que conecta narrativas femininas através da dor e do amor próprio. Marcelo Cuhexê traz ao festival Levante pela Terra, obra captada no acampamento homônimo, realizado durante a pandemia, em Brasília, contra o avanço de leis que impactariam nos direitos indígenas; e Vínícius Schuenquer apresenta Reviver, filme sobre perdas do passado e superação.

MOSTRAS PARALELAS E SESSÕES ESPECIAIS

Diferentemente de edições anteriores, em 2022 o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro já inicia sua programação com a Mostra Competitiva, dispensando um filme de abertura. Outras obras, no entanto, somam-se às obras selecionadas para sessões especiais, com títulos prestigiados do cinema nacional, também para duas mostras paralelas: Reexistências e Festival dos Festivais.

O encerramento do Festival de Brasília contará com sessão hors-concurs do filme Diálogos com Ruth de Souza, da diretora paulista Juliana Vicente, antecedendo a cerimônia de premiação, que acontece em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A data marca também o retorno do Prêmio Zózimo Bulbul, concedido pelo festival em parceria com a APAN e o Centro Afrocarioca de Cinema. Na sequência, haverá sessão especial do documentário Quando a coisa vira outra, de Marcio de Andrade, em homenagem a Vladimir Carvalho, pioneiro do cinema brasiliense.

Em tributo ao diretor Jorge Bodanzky, o 55º FBCB apresenta ao público uma pequena mostra com produções do homenageado desta edição. Paulista, o diretor iniciou sua carreira na Universidade de Brasília e realizou obras junto a Hector Babenco, Antunes Filho e outros, sendo Iracema – Uma transa Amazônica (1974), seu mais conhecido filme. Ao longo do festival, tal homenagem traz ao Cine Brasília Distopia Utopia (2020) e, em caráter inédito, Amazônia, a nova Minamata? (2022). Além desses, o público poderá assistir à cópia restaurada de Compasso de Espera (1969), longa de Antunes Filho, cuja bela direção de fotografia é assinada por Bodanzky.

Na mostra Reexistências, quatro longas exploram narrativas do presente e do passado, pensando a diversidade em todas suas formas de expressão. Do Rio de Janeiro, o longa Não é a primeira vez que lutamos pelo nosso amor, de Luis Carlos de Alencar, aborda a perseguição contra a população LGBTQIA+ durante a ditadura militar brasileira. Do Amazonas, Uýra – A retomada da floresta, de Juliana Curi, conta a história de uma artista trans indígena em sua jornada de autodescoberta.

O título mineiro-fluminense O Cangaceiro da moviola, de Luís Rocha Melo, homenageia o montador de cinema pernambucano Severino Dadá, um baluarte da filmografia brasileira, enquanto repensa a dominação da produção sudestina ante os eixos de produção audiovisual nacionais. Por fim, o paraibano Cordelina, de Jaime Guimarães, se apresenta como roadmovie a explorar o universo feminino e as memórias a partir de personagem em peregrinação entre Pernambuco e Paraíba.

Conhecido por dar preferência a títulos inéditos, o Festival de Brasília ganha também a Mostra Festival dos Festivais, para apresentar três filmes com passagens bem sucedidas por outras competições nacionais. São eles: o cearense A filha do palhaço, de Pedro Diógenes, sobre a relação entre pai e filha nos tempos atuais; o paulista Três tigres tristes, de Gustavo Vinagre, que narra a saga de três pessoa LGBTQIA+ em busca de dinheiro para pagar um aluguel muito atrasado; e o goiano Fogaréu, de Flávia Neves, uma produção ambientada em meio à modernidade do agronegócio em Goiás, onde se discutem origens familiares e segredos do passado.

Fonte: Tarcísio Pádua/ aliastpadua.com