Vivendo em uma das principais áreas de risco geológico do Distrito Federal, a população Vila Rabelo relata falta de acesso a serviços básicos

A comunidade da Vila Rabelo é uma área de ocupação irregular do DF que existe há 27 anos. Ela está localizada na região administrativa de Sobradinho II e foi criada após um desmembramento de fazendas no local. Uma dessas propriedades levava o nome de Rabelo, e foi daí que se originou o nome da vila.

Com residências construídas em um terreno acidentado e muito próximas às encostas dos morros, os moradores da região vivem em constante alerta para erosão, deslizamentos, inundações e enxurradas. O principal medo de quem vive ali é perder a sua casa em um desabamento.

Vista aérea da Vila Rabelo. Gravação de tela: Google Maps.

Instabilidade no terreno

De acordo com um estudo do Serviço Geológico do Brasil (SGB-CPRM), o Distrito Federal possui 22 áreas de risco, em oito Regiões Administrativas (RA). O levantamento aponta que Sobradinho II é a que possui mais áreas com perigo geológico, ao todo são cinco: três de risco alto e duas com risco muito alto. A comunidade da Vila Rabelo é um desses locais. O estudo foi realizado no primeiro semestre de 2022 e publicado em janeiro de 2023. 

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Setorização de áreas em alto e muito risco a movimentos de massa, enchentes e inundações. Vila Rabelo 1, Conjunto 6, Quadra 3 e Conjunto 7, Quadra 1/ Reprodução: SGB-CPRM

Contrapondo o relatório, na visão da moradora Ivanice Soares, hoje os riscos de desabamento no local são muito menores se comparados há anos anteriores. “Agora o pessoal reforça muito mais as casas, são de alvenaria, arrumam se rachar, tem mais cuidado com isso aí”, disse ela.

O vídeo mostra construções em alvenaria com estruturas reforçadas próximas a Avenida Principal da Vila Rabelo.

A comunidade é dividida em Vila Rabelo 1 e Vila Rabelo 2. A segunda é uma área de expansão. Os espaços encontrados para construção são os mais próximos aos morros. Lá, as casas estão recém construídas e ainda não sofreram com longos períodos de chuva.  A Rabelo 2 é considerada pelos moradores como mais perigosa para os efeitos geológicos. O SGB atesta essa conclusão, pois mapeou risco muito alto para deslizamento, planar e enxurrada, com 35 imóveis e 140 pessoas em perigo no endereço “Vila Rabelo 2, conjunto A”.

Setorização de áreas em alto e muito risco a movimentos de massa, enchentes e inundações. Vila Rabelo 2, Conjunto A. / Reprodução: SGB-CPRM.

Tendo em vista o risco de desastres, o relatório do SGB sugere como soluções para a problemática, entre outras medidas: remoção definitiva de moradias mais críticas; remoção temporária de famílias em dias de pluviosidade anômala e implantação de medidas de controle e fiscalização coibindo ocupações irregulares.

“Agora tem mais pessoas do que antes à beira dessas encostas, desses precipícios, morando. Então, a pessoa que tem a oportunidade de sair do aluguel, não importa o lugar onde eles vão, eles querem sair do aluguel e qualquer lugar que eles serve”, diz o presidente da associação de moradores. 

Dificuldades além do risco

No ano de 2011, 152 famílias que residiam na Rabelo 2 foram transferidas para um condomínio da mesma região administrativa chamado Buritizinho. “A galera lá já tem asfalto, saneamento básico, unidade de saúde, creche. E aqui nada ainda. A gente está esperando isso há muito tempo. Parece que não tinha prioridade”, disse Nemuel Kessler, presidente da Associação de Moradores Amigos da Vila Rabelo (AMAVIRA). Mesmo com 27 anos, a Vila Rabelo ainda não tem acesso a nenhum desses serviços.

Ivanice Soares concorda com Nemuel: “Aqui tá precisando de um ‘bocado’ de coisas: uma creche, investimentos na área de saúde, um posto de saúde. Precisa de um sistema para mais qualidade de vida, esgoto, essas coisas”, pontuou. Ela tem duas netas pequenas que estudam em creches longe de casa, por não existirem estabelecimentos específicos no local. Toda a família de Ivanice reside na Vila Rabelo. Filhos e netos cresceram na região de Sobradinho II. 

O que diz a administração

Quando questionada sobre as queixas dos moradores, a Administração de Sobradinho II, em conjunto com a Secretaria de Saúde, explica que os usuários residentes na Vila Rabelo são atendidos na UBS 1 de Sobradinho II, localizada na AR 13. A UBS atende pacientes agendados e por demanda espontânea, considerando a vulnerabilidade social da comunidade. Já a Secretaria de Educação do DF esclarece que a Escola Classe 17 oferece educação infantil, ensino fundamental e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Outro problema apresentado é a distribuição de água no local, segundo o, presidente da associação de moradores, ela é feita por meio de rodízio. “Quando a água chega, ela chega fraca e nos finais de semana e feriados fica mais difícil ainda. Têm moradores que não tem caixa d’água, então, sábado e domingo eles ficam sem água. Feriado reduz para caramba e tem lugar que não chega. Por exemplo, tem feriado que na minha casa não chega”, aponta Nemuel.

A região da Vila Rabelo também não possui saneamento básico. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), saneamento básico é “um conjunto de serviços fundamentais para o desenvolvimento socioeconômico de uma região tais como abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais”. 

Apesar do saneamento básico ser um direito garantido pela Constituição Federal e instituído pela Lei nº 11.445/2007, o Painel Saneamento Brasil mostra que 44,2% dos brasileiros não têm coleta de esgoto. O Distrito Federal é referência no serviço, 8,2% da população não possui rede de esgoto, mas o saneamento faz falta para a qualidade de vida de mais de 228 mil pessoas que residem em regiões como a Vila Rabelo.

A Administração de Sobradinho II informou, em nota, que a Caesb atende a Vila Rabelo com fornecimento regular de água e aguarda estudo de viabilidade técnica para a implantação da rede de esgotos. “Nos locais onde não há rede coletora, é dever do morador fazer uso de fossa séptica”, declara.

Quem chega ao local percebe que apenas a Avenida Principal, por onde passam os ônibus, é asfaltada. Todas as demais ruas são de terra. Os moradores contam que, nos períodos de chuva, o espaço fica tomado por lama e que a locomoção é dificultada, pois a

água não tem para onde escoar

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O presidente da AMAVIRA relata que o GDF já começou um projeto, na época das eleições, para colocar blocos nas demais ruas da comunidade, mas não deu continuidade. Os restos da obra ainda podem ser vistos ao lado do campo de futebol construído pelo governo. 

O campo de grama sintética foi entregue à comunidade em maio de 2022 pelo GDF. A inauguração do espaço fazia parte de uma agenda do governo para entregar e reformar equipamentos esportivos e de lazer em todas as cidades. Essa iniciativa contribui para o projeto social do instrutor esportivo e professor José Carlos Santos, que ensina crianças da região a jogar futebol. Antes, os jovens treinavam em um campo de terra.

Com 27 anos de espera por medidas governamentais, hoje, Nemuel Kessler relata que o único patrimônio concedido à Vila Rabelo é a Escola Classe 17 de Sobradinho, que se tornou ponto de referência na comunidade.

Escola Classe 17 Sobradinho.

Inclusão

A escola também se tornou um ponto de encontro de alguns moradores. “O Wi-fi Social tem ajudado bastante, só que o alcance dele é pouco. Como a antena fica pertinho da escola, o pessoal se reúne lá só para ficar mexendo no celular”, diz Nemuel. Wi-fi Social é um projeto da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação que consiste na disponibilização de acesso público e gratuito à internet, via sinal Wi-Fi, aos cidadãos do DF. 

A finalidade do projeto é a inclusão digital e social da população das 25 Regiões Administrativas do DF. O projeto é bem acolhido pela população da Vila Rabelo, onde, apesar da vulnerabilidade social, é comum ver adultos e crianças usando aparelhos celulares.

Fonte: Isabela Domanico e Maria Tereza Castro –  Agência CEUB, Supervisão: Gilberto Costa –  Agência CEUB