As cicatrizes da cultura escravocrata no Brasil perpetuam-se na contemporaneidade, nas formas mais sutis ou densamente em uma segregação social, em uma estratificação, cujo negro é figura praticamente ignorada ou decorativa.

 

Segundo Darcy Ribeiro, primas na codificação do entendimento de nossa formação por meio de sua antropologia insurrecionária, proferiu: “O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade e de descaso”.

 

Naanálise de nossa história pretérita encontramos os fundamentos das chagas que fecundaram nossa cultura escravocrata. Darcy Ribeiro, na sopesedas matrizes que compõem nossa formação – seja ela indígena, europeia ou africana -, identifica a resistência como fator inerente à preservação cultural e à batalha pela alforria, na luta de classes que caracteriza o Brasil.

 

Exemplo indispensável, no desmonte do mito de nossa integração racial pacífica e harmoniosa, esta esculpido o que foi e o que representa o quilombo dos Palmares; cujo ensejo, na década de 1970, um grupo de quilombolas, no Rio Grande do Sul, cunhou o dia 20 de novembro como o dia da Consciência Negra.

 

Data que homenageia o Zumbi dos Palmares, assassinado pelas tropas coloniais brasileiras, em 1695, e que ganhou força a partir de 1978, quando surgiu o Movimento Negro Unificado, e onde Abdias do Nascimento, uma das mais importantes cepas da luta negra brasileira, é inconteste.

 

Localizado na Serra da Barriga, na então capitania de Pernambuco, região hoje pertencente ao município de União dos Palmares, no estado de Alagoas,o quilombo dos Palmares foi um dos mais importantes do período colonial; embora tenha surgido no fim do século XVI, seu auge deu-se na segunda metade do século XVII. Constituído por quilombolas (escravos fugitivos) tornou-se símbolo da resistência negra. Seu líder, Zumbi.

 

Palmares é símbolo da resistência e da rebeldia.

Segundo Darcy Ribeiro a luta do negro foi e ainda é a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional.

 

Perpetua-se ainda em nossas classes dominantes, feitas de ancestralidade e de senhores de escravos, a mesma atitude de desprezo vil, segregando-os nas periferias e no subemprego.

 

Faz-se primorosa a recordação e a exaltação do que foi e o que representa Palmares na luta dos negros. A reflexão indispensável da brutalidade e da crueldade que se deramquanto à formação de nossa sociedade.

 

Em um momento como a contemporaneidade, mais uma vez, tentam corromper a história.

 

Ainda não criamos a possibilidade de uma democracia plena e inclusiva; pois para isso, o sistema democrático deve estar vinculadoao partilhamento de oportunidades sem qualquer forma de desigualdade ou segregação.

 

Viva, Palmares.

Viva, Zumbi.

 

(*) Por Henrique Matthiesen/Bacharel em Direito & Jornalista