Bienal Internacional de Arte Urbana, evento promovido por pintor brasiliense, traz ao Distrito Federal profissionais de seis países, que prometem embelezar a cidade

Até abril, 74 paradas de ônibus de Sobradinho vão virar telas. Moradores apoiam iniciativa 
 -  (crédito: Fotos: Carlos Vieira/CB)

Até abril, 74 paradas de ônibus de Sobradinho vão virar telas. Moradores apoiam iniciativa – (crédito: Fotos: Carlos Vieira/CB)int(20)

A quarta edição da Bienal Internacional de Arte Urbana, idealizada por Toninho de Souza, artista de Sobradinho, reúne em Brasília mais de 60 profissionais de todo Distrito Federal, além de brasileiros de outros estados e profissionais da Argentina, Colômbia, Venezuela, Honduras, Portugal e Finlândia. O evento, que começou em novembro de 2023 e vai até abril deste ano, pretende transformar 74 pontos de ônibus de Sobradinho em telas de pintura.

Toninho é um dos nomes importantes das artes plásticas no DF. Já trabalhou com curadoria em museus locais e também fora do Brasil. Ao pensar na bienal, o artista baiano queria aproximar a população da cidade que o acolheu da experiência de caminhar pelas salas desses museus — e aproximar os artistas da experiência de ganhar as ruas.

“Com esse projeto, levamos o artista para a rua e dizemos ao público que ele está também na galeria. É uma experiência que vai e vem entre os dois espaços”, descreve. Além das paradas de ônibus, a bienal conta com uma exposição permanente no Shopping de Sobradinho, com outras obras dos artistas participantes do projeto. “A maioria dos que estão nas avenidas trouxe sua arte para o shopping. Tem artista que trouxe o original de sua obra para o shopping e a réplica está na parada de ônibus”, diz o coordenador.

A primeira edição da bienal ocorreu em 2017 e, nas primeiras edições, contava com a participação de cerca de 15 artistas, brasileiros e estrangeiros. Antes restrita ao hall de entrada do Teatro de Sobradinho, onde estreou, a exposição aumentou o número de participantes e ganhou as paradas para tornar o acesso às artes ainda mais democrático aos cidadãos de Sobradinho.

Toninho afirma que ir para as ruas se fez necessário porque o objetivo do projeto é levar cultura para onde o povo está: “O principal motivo desta mostra é levar a arte aos moradores da capital brasileira, que não está acostumado a visitar museus e galerias.”

Miraldo Alves mora perto de uma das maiores paradas da cidade, em extensão, que, hoje, virou tela para uma pintura do idealizador do projeto. “Acho magnífico, porque alegra mais o ambiente e deixa a parada de ônibus mais destacada. Fico feliz em ver uma arte dessas, principalmente se tratando do Toninho de Souza”, elogia.

A Bienal Internacional de Arte Urbana abre espaço para profissionais em diferentes pontos da carreira, desde artistas consagrados na cidade até amadores, que começaram a pintar depois da aposentadoria. “Os profissionais selecionados ganham um certificado de participação e ganham também uma experiência de intercâmbio. É uma oportunidade de conhecer trabalhos de artistas mais experientes, melhorar sua técnica e se arriscar mais naquilo que nunca experimentaram, sob a minha orientação”, explica Toninho.

O pintor acrescenta que o evento movimenta a cena cultural da região administrativa e democratiza o acesso à arte. “Cria-se uma relação recíproca entre os artistas e os moradores de Sobradinho”, afirma.

Desafios

Homem negro, de óculos escuros, aponta com as mãos para painel colorido ao fundo.
O principal motivo desta mostra é levar a arte ao povo da capital brasileira, que não está acostumado a visitar museus e galerias” Toninho de Souza, artista(foto: Carlos Vieira/CB)

Tom Mello participa da bienal desde a primeira edição. Trabalhando com arte há mais de 30 anos, ele pontua a importância do projeto ganhar patrocinadores. Hoje, não há remuneração para os artistas, e todo material usado é doado pelos criadores das obras. “O artista tem que ser valorizado, independentemente se trabalha por amor ou não. No meu caso, eu dependo da arte para viver, não tenho emprego fixo”, conta.

Ele comenta que trabalhos voluntários, como esse, são comuns na carreira artística, mas defende que, como em outras áreas, a formação dos profissionais da cultura também deve ser remunerada. “No Brasil, vivemos uma situação complicada no setor da arte e do entretenimento. Acho que vai demorar um pouco ainda para conseguirmos realmente a visibilidade que merecemos como setor, tanto na política, quanto de grandes empresários que têm condições de encaminhar e desenvolver projetos artísticos de fôlego, mas não o fazem”, lamenta.

No início desta edição, a bienal enfrentou, ainda, outro desafio: algumas obras foram rasgadas, roubadas ou pichadas. A população apoiou o evento, e os artistas prestaram uma série de boletins de ocorrência nas delegacias locais, o que coibiu a prática de novos vandalismos. O coordenador do projeto conta que chegou a procurar alguns dos pichadores identificados para convidá-los a participar da exposição nas O principal motivo desta mostra é levar a arte ao povo da capital brasileira, que não está acostumado a visitar museus e galerias” Toninho de Souza, artista paradas de ônibus, mas as respostas foram negativas.

Para Tom, a destruição das obras resulta em danos coletivos: “Como tiramos dinheiro do nosso bolso para investir no evento, então, esse vandalismo se torna um prejuízo pessoal. Mas não só isso, é o nosso trabalho, porém, também estamos melhorando o visual da cidade.”

Realização

Grupo de nove pessoas posa em galeria de arte, com quadros ao fundo. À frente, estão duas mulheres loiras e brancas.
Alda Carvalho (e) e Vilma Machado (d), junto a outros colegas, pintaram as telas da galeria e das ruas da cidade(foto: Carlos Vieira/CB)

Alda Carvalho sempre teve a vida pessoal e profissional permeadas pela arte. No passado, quando teve que decidir seu curso de graduação, não teve dúvidas: optou pela licenciatura em artes, com o incentivo de uma bolsa de estudos que conseguiu enquanto lecionava para crianças. Desde então, ela não parou sua produção artística e nem sua carreira de pesquisadora e professora na faculdade Dulcina de Morais e na Universidade de Brasília (UnB). Especializou-se na técnica de cerâmica, área em que trabalha ainda hoje.

É por isso que, apesar de experiente, sua produção na bienal foi algo novo, muito diferente das peças que costuma divulgar. “Expor na bienal me ajudou muito também na comunicação do meu trabalho. Estava muito quieta, mais voltada para a família, e o projeto me motivou a pensar em exposições futuras da minha produção ao longo dos anos e na venda das minhas artes de cerâmica”, diz.

A colega Vilma Machado compartilha o sentimento de realização. Ela descobriu a paixão pela arte quando fez um curso de pintura, e, agora, está há 10 anos trabalhando com artes plásticas, depois de uma longa carreira como empresária. É a primeira vez que Vilma expõe sua arte em uma bienal. “Pela arte, eu comecei a descobrir o divino sacro, comecei a pintar obra sacra, e daí expressei meu amor pelo divino e por Nossa Senhora, que são elementos importantes para mim.”

É também a primeira vez que ela pinta arte urbana. “A cada dia, eu agrego mais valores ao meu trabalho. A princípio, meu estilo está mais voltado ao mundo clássico, ao mundo sacro. Eu fazia pinturas da minha religiosidade. Então, eu saí um pouco desse estilo e vim pra esse campo da arte urbana, o que foi uma oportunidade incrível”, comemora.

Além disso, o evento a fez voltar a frequentar a cidade onde morou por muitos anos, o que tornou a experiência ainda mais especial: “O convite do Toninho de Souza trouxe muito orgulho para mim. Tem um tempo que não moro aqui, mas me sinto um pouco sobradinhense de coração.”

Tags

  • #arte 
  • #artes plásticas 
  • #bienal 
  • #cultura 
  • #sobradinho

*Fonte: Lara Costa/CB- Estagiária sob a supervisão de Priscila Crispi/Correio Braziliense