Estava aqui pensando em tudo que já escrevi e todas as minhas ações em prol da população negra e principalmente da mulher. E me pergunto: será que vale a pena continuar com a luta? Tem uma razão forte que me diz que é preciso continuar. Por mim e por muitas que mesmo em seu silêncio me apoiam. Mesmo que seu gesto seja apenas curti um texto, ou chorar no seu canto por ter se identificado com muitos casos. A mulher negra ela é cruelmente sacrificada. Toda a carga de nossas mazelas enquanto negros sobre cai nela. O silêncio de muitas tem uma explicação, o medo de ficarem totalmente sós, de serem julgadas… porque muitas sofrem o desprezo da família e mesmo assim não querem perder o vínculo familiar por mais difícil que seja.

 

Pode ser um clichê, mas não vou parar de dizer ‘’não é fácil ser mulher negra’’. Digo isso com real vivência. Não poderia dizer algo se não tivesse sentido na pele. Não posso me calar diante de tudo isso. Claro que nesse meio existem aquelas que não sofreram críticas por causa da cor da pele ou o seu cabelo, e por essa razão vivem no seu mundinho como se essa luta não fosse sua. Mas aí eu me pergunto: Alguma vez na vida elas tiveram que se posicionar diante da família e da sociedade brasileira? E se tiveram ficaram caladas?

 

Nós mulheres não podemos nos ausentar dos problemas que nos rodeiam mesmo não tendo vivido eles, a roda da vida gira e nem sempre para no mesmo lugar. A gente tem voz e temos mulheres que nos representam e lutam por nós. Não podemos ficar acuadas, com medo, sentenciadas. Não somos mais escravos, esse tempo já passou. Não podemos nos submeter aos desmandos da elite brasileira e o homem com o seu pensamento machista

 

E por falar em escravidão nós negros não podemos ficar presos a nossa história. Os nossos ancestrais é que foram escravos, nós que somos a nova geração de negros temos outras dores, outras batalhas para encararmos. Não podemos reviver a mesma história ou sequer ter o mesmo pensamento escravocrata que tinha a população branca daquele período e que muitos ainda têm nos dias atuais. Nós vivemos o pós – escravidão e não podemos deixar de lutar. Não existe luta sem objetividade.

 

Temos sim que conhecer nossa história, nossas origens e cultura e contar para quem está chegando. O que não podemos é limitar a liberdade de escolha de cada indivíduo impondo a perpetuação da nossa raça. Afinal a nossa liberdade não foi assinada pela Princesa Isabel? Com qual direito o homem que muitas vezes renega a mulher negra a condiciona a somente ficar com homens negros? Daí que vem a ideia de que o amor tem cor?

 

Eu posso não ter o apoio de muitas mulheres negras, mas não irei deixar de lutar. Lutar é preciso. O indivíduo que não luta não vive. Espera que as coisas aconteçam como num passe de mágica. É estralar o dedo que todo o preconceito e falta de respeito para com nós negros vai se embora.

 

(*) Por Clarisse da Costa – poetisa e militante do movimento negro em Biguaçu Santa Catarina -Contato: clarissedacosta81@gmail.com