Por Jana Lauxen*

Ipê é uma palavra de origem tupi que significa “árvore cascuda”. E é mesmo: eles florescem e se cobrem de cor em períodos como o inverno, aparentemente incompatíveis com a beleza e a delicadeza de suas flores.

Em Brasília, os ipês são tombados como Patrimônio Ecológico: são mais de 600 mil espalhados pela cidade.

E foi justamente pra lá que Babi, a protagonista do romance infantojuvenil Um ipê de cada cor, se mudou a contragosto, junto com sua mãe e seu padrasto. Em plena adolescência, eram mudanças demais para uma menina só, já que trocar de cidade significava também trocar de casa, de escola, de amigos, de rotina, de vida. Afora isso, a chegada de um irmão ameaçava alterar completamente suas relações familiares, o que somado à efervescência típica da idade, fazem de “adolescer” um verbo difícil para ela conjugar. Difícil, mas bonito, e à medida que Babi flexiona palavras e reflexiona sentidos, sensações e sentimentos, assistimos ela se transformar conforme o mundo à sua volta também se transforma.

Eriane Dantas, autora da obra, conseguiu em seu segundo livro equilibrar com maestria e poesia os múltiplos aspectos da vida de sua protagonista adolescente, utilizando-se de eventos externos – comuns a todos e sobre os quais não temos muito controle – para apresentar Babi abaixo da superfície e além dos fatos, indo fundo naquilo que ela sente em relação ao que acontece.

E é precisamente aqui que Eriane Dantas estabelece, entre leitor e personagem, a conexão necessária para que haja identificação.

Mais do que protagonista, Babi também é a narradora da história, que se passa enquanto se lê, permitindo ao leitor acompanhar, em tempo real, os episódios que se sucedem, movendo-se junto e tornando-se naturalmente parte da narrativa. Vivendo, Babi nos faz viver também. Refletindo, nos leva a refletir com ela. Passamos então a olhar através de seus olhos, sentir através de sua pele, andar através de suas pernas e pés. Sua realidade torna-se a nossa realidade. A empatia surge sem esforço.

Destaco ainda a primorosa construção das relações de afeto entre Babi, seus pais, seu padrasto, seus amigos e também com a cidade, que pulsa como um coração. Estes elos se entrelaçam e definem a espinha dorsal da história, já que é por meio destes vínculos que Babi entra em afinidade com quem ela é e com quem quer se tornar.

Outro ponto relevante de Um ipê de cada cor é a atenção conferida ao cenário onde tudo acontece. Brasília não é mera paisagem: é personagem onipresente, onisciente e onipotente, contudo próxima, acessível e até gentil. Em muitas obras, é comum que o lugar em que o enredo se desenrola não seja devidamente explorado, o que pode se converter em um erro – principalmente quando se trata de adolescentes, que pela primeira vez criam laços conscientes com o espaço no qual coexistem e pelo qual são influenciados, assimilando feito tinta fresca a personalidade da cidade que chamam de sua. Eriane Dantas captou a importância do meio para a transmissão da mensagem e tornou Brasília uma espécie de narradora silenciosa. Brasília e seus ipês.

Afinal, é nesta terra “sem mar e seca como o deserto”, segundo descreve Babi nas páginas iniciais do livro, que ela descobre, ao som de Legião Urbana, que estações áridas podem ser propícias para o florescimento. E é assim, enquanto observa os ipês colorirem a cidade cinza, que Babi também floresce e vê Brasília florescer diante de seus olhos. É como vai amadurecendo; tornando-se cascuda e forte, como os frondosos ipês, mas sem perder a graça e a sensibilidade de suas pequeninas e multicoloridas flores.

As ilustrações que compõem o livro, de autoria da artista Bianca Lana, também dão um toque especial à história e trabalham em parceria simétrica com o texto, ajudando a conduzir o leitor capítulo após capítulo Babi adentro e Brasília afora.

Lançado em agosto de 2020 pela Editora InVerso, Um ipê de cada cor é um livro de fato especial: profundo, porém leve. Regional, porém cosmopolita. Sensível, porém cascudo. Cascudo, porém florido.

Feito sob medida para nossos adolescentes.

* JANA LAUXEN tem 36 anos, é editora e escritora, autora dos livros Uma Carta por Benjamin (2009, Editora Multifoco), O Túmulo do Ladrão (2013, Editora Multifoco), O Duplo da Terra (2016, Editora Os Dez Melhores) e Inspiração: Substantivo Feminino (2019, Editora Os Dez Melhores). Colaboradora da revista Café Espacial, já publicou em 18 coletâneas e organizou outras 15.

Responsável pelo selo Nascedouro da Editora Os Dez Melhores, que publica livros escritos por crianças e adolescentes, também ministra palestras em escolas.

Atualmente trabalha em seu 5º livro, o romance policial O Gene de Eva, e no projeto infantojuvenil Cantigas de Despertar.

Site: www.assinadojana.blogspot.com

E-mail para contato: assinadojana@gmail.comColaboração com o Jornal de Sobradinho